Pintura em tela, por nossos professores
Quando comecei a trabalhar na Pandora, fiquei encantada com o talento dos professores que aqui dão aula e com a paixão que cada um deles coloca em seu trabalho. Sempre me interessei pelo mundo da arte em geral, seja na dança, no teatro, na música, cinema, mas confesso que nunca havia realmente prestado atenção às pinturas em tela. Até que um dia, passando pelo ateliê da escola, eu vi um Jack Sparrow estampado em uma tela de mais de um metro de altura. Fiquei admirada com a beleza realista daquela obra e já quis logo saber quem estava trabalhando nela. Até que descobri: nosso professor Vitor Gorino (foto) dá aulas de pintura em tela para os professores da Pandora e a linda pintura que eu vi foi feita por ninguém menos que Lili Detoni, professora de Caligrafia. Depois disso, fui ver as pinturas dos professores para ver de perto como eles trabalham. As telas estão lindas e existe um projeto para serem expostas.
Como fiquei super interessada neste trabalho, fiz uma entrevista com o professor Vitor Gorino que vocês conferem a seguir.
Pandora: Quando você começou a se interessar por pintura?
Vitor: Sempre me interessei, desde muito jovem, mas só fui estudar pintura na universidade.
P: Quais técnicas você utiliza?
V: Trabalho com óleo sobre tela. Estudei as técnicas da pintura veneziana que é muito detalhista e rigorosa, então hoje adapto essa técnica livremente a meus trabalhos. Acho interessante manter as experimentações na pintura, o que não seria possível seguindo rigorosamente uma determinada técnica.
P: Quais suas principais influências?
V: Acho influência um termo meio inadequado atualmente. Nesse sentido, gosto muito das pinturas de Vermeer, Klimt, Hooper, Lucien Freud e Kent Williams.
P: Desde quando começaram as aulas de pintura com os professores da Pandora?
V: Estamos trabalhando juntos há quase um ano.
P: Vocês estipularam uma temática para as telas?
V: Não. Na verdade, estamos tentando estudar a pintura em um nível um pouco menos artesanal. É claro que os alunos aprendem a dominar questões técnicas de pintura a óleo, mas não estamos apenas voltados em ensinar a técnica. Então, procuramos temas que estimulem cada um dos alunos, caso a caso. É um processo gradual, eles precisam descobrir o que têm a dizer através da pintura.
P: Como você vê a pintura no mundo atual?
V: A pintura sempre estará viva. Ela é, talvez junto da dança, um dos mais fortes meios de expressão sem palavras que existem, e isso nunca será deixado de lado. Me parece que a pintura figurativa está entrando em evidência novamente, o grafitti e a arte urbana têm um grande mérito nisso, acredito. É claro que essas duas modalidades não são apenas pintura, são mais que isso, são meios próprios de expressão, que se valem de alguns princípios em comum com a pintura. Mas a pintura figurativa vem ganhando força dentro da produção contemporânea quer seja pela nova produção ou pelo resgate da obra de determinados pintores figurativos, através de exposições, mostras e retrospectivas.
P: Na sua opinião, o que seria prioritário fazer para divulgar ainda mais as artes plásticas no Brasil e no exterior?
V: Quando se pensa em divulgar artes plásticas no Brasil, há o problema da arte contemporânea. O público se dá muito bem com a produção até o período do modernismo, mas quando é a produção contemporânea muita gente ainda trava. É um problema que a meu ver já está sendo tratado, em duas frentes: a da produção e a do público. O discurso da produção contemporânea se aprofundou e se elitizou aos poucos, dificultando a identificação do público com as obras. Mas isso não é verdade em todos os casos; o interesse do público existe e ele consegue sim, se conectar com muitas obras. Isso varia. Existem obras mais fáceis de se identificar, há outras mais difíceis, há arte contemporânea boa e há a ruim, assim como pintura, desenho, escultura, peça de teatro… A instrução do público me parece fundamental nessa questão. É claro que uma pessoa que só conhece meia dúzia de renascentistas não irá apreciar uma instalação, pois irá procurar nela o mesmo que encontrava em Michelangelo, por exemplo. Mas os próprios parâmetros curriculares das escolas estaduais tem uma forte inclinação à discussão e apreciação de arte contemporânea, o que é um grande avanço. Há exemplos como o formidável parque do Inhotim, em Minas Gerais que tem a maior coleção de arte contemporânea da américa latina, aqui, do nosso lado. Enfim, acredito que a relação entre público e produção irá se nivelar, é uma questão de tempo. Além disso é uma questão socioeconômica. Produção e apreciação de arte em larga escala ainda é um privilégio de países mais desenvolvidos, quando uma sociedade em sua maioria tem sua necessidades básicas de saúde, educação, moradia e bem estar social resolvidas, aí sim ela irá aspirar a objetivos intelectuais, como a arte.
P:Como você vê a sua arte?
V: Não gosto muito de falar do meu trabalho, acho que é ele quem tem que falar de si(risos). Tento fazer no meu trabalho uma expressão do nosso tempo, se é pintura, quero pintar como hoje, sobre hoje.
P: Faça a sua definição sobre arte.
V: Ah, não me arrisco. A arte tem a eterna habilidade de se esquivar de definições. Assim que estabelecemos uma que nos parece a mais adequada, surge uma obra que vai além de nossa definição. Tive um professor que acreditava no contra-exemplo: “As grandes coisas não se definem. Não sei definir a vida, mas sei definir a morte, nem o amor eu sei, mas sei definir o ódio. Não sei definir a arte, mas quando estou diante de algo que não é arte, fica claro”. Acho essa bacana.






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